Bates, L. (2025). The New Age of Sexism: How the AI Revolution is Reinventing Misogyny, Simon & Schuster.
Helena Ferreira [2026]
Pigmaliões com ligação à corrente
Sobre The New Age of Sexism: How the AI Revolution is Reinventing Misogyny, de Laura Bates (Simon & Schuster, 2025). Uma recensão.
Em setembro de 2023, numa vila vinhateira do sul de Espanha, os telemóveis das raparigas de Almendralejo começaram a dar sinal de mensagens. Mais de vinte delas, a mais nova com onze anos, receberam fotografias de si próprias nuas. Nenhuma delas tinha tirado ou partilhado semelhantes imagens. Foi obra de uma aplicação que, por dez euros, despe automaticamente qualquer fotografia roubada de uma conta de Instagram. Poucas páginas á frente, a autora faz a mesma experiência consigo própria: carrega numa aplicação uma fotografia de imprensa, tirada à porta de uma cerimónia, e em menos de dez minutos, sem gastar um cêntimo, está a olhar para uma imagem hiper-realista do seu próprio corpo nu. O seu coração dispara e, de repente, sente-se suja e apetece-lhe tomar um duche. "Sei que parece estúpido", confessa, mas não há nada que prepare uma mulher para se ver assim.
A misoginia conjugada no presente
Há toda uma indústria nos discursos à volta da inteligência artificial, e essa indústria fala no futuro e no condicional. Será que a IA destruirá a humanidade? Poderá uma máquina escravizar-nos? Irá a IA controlar o mundo? São perguntas que os grandes jornais, do New York Times ao Público (para falar do nosso país), repetem em letras gordas, e que nos mantém hipnotizados a olhar para um horizonte distante, povoado de robôs assassinos e singularidades apocalípticas. Bates faz uma coisa simples e devastadora: tira os olhos do horizonte lá longe e coloca-os no chão que, agora, pisamos. Enquanto os profetas debatem a extinção futura da espécie, ela mostra-nos o que alguns humanos, bastante concretos e muito atuais, já fazem hoje com a tecnologia que já existe.
O já é a palavra-âncora da introdução, martelada em anáfora: já há algoritmos a recusar crédito a mulheres e a discriminar minorias em hospitais e tribunais; já há raparigas expulsas da sala de aula por pornografia falsa fabricada pelos colegas; já há mulheres a serem agredidas sexualmente no metaverso; já se pode visitar, em Berlim, um estabelecimento onde uma mulher artificial nos é apresentada coberta de sangue, se assim o desejarmos. A retórica do futuro em: The Future of Sex, The Future of Companionship, Hold On, We're Building the Future Here, apresenta-nos slogans reais de empresas como o álibi perfeito para não olhar para o presente. Bates desmonta-o com uma pergunta que devia estar à entrada de cada laboratório do Silicon Valley: que futuro? Construído por quem? E ao serviço de quem?
Importa aqui dizer quem faz esta pergunta. Laura Bates não é académica de carreira; é a fundadora do Everyday Sexism Project, arquivo que reuniu mais de um quarto de milhão de testemunhos de discriminação e abuso, e autora de Men Who Hate Women (2020), onde falou sobre uma maré de misoginia extremista de que quase ainda ninguém falava. Um ano depois, Jake Davison, um homem mergulhado no ódio incel, cometeu o pior tiroteio do Reino Unido em mais de uma década. Quem nos avisou disto e o viu cumprir-se de forma tão trágica conquista o direito de ser levada a sério quando volta a avisar: está a chegar, e desta vez é maior. É essa a urgência que percorre este novo livro e com ela vem a desconfortável sensação, à medida que o lemos, de estarmos diante de uma profecia que preferíamos não ver confirmada.
O método: uma feminista infiltrada
Antes de falarmos da teoria, vamos falar no método, porque é nele que está parte da originalidade desta obra. The New Age of Sexism: How the AI Revolution is Reinventing Misogyny não é um tratado escrito num sofá. É, em grande medida, auto-etnografia e jornalismo de infiltração. Bates coloca o capacete de realidade virtual e passa horas no metaverso de Mark Zuckerberg, onde, em menos de duas horas, assiste à primeira agressão sexual: um avatar masculino corre por trás de uma mulher e simula apalpá-la. Quando ela própria escreve numa lousa virtual "JÁ FOSTE AGREDIDA NO METAVERSO?", a resposta é instantânea e unânime: “muitas vezes, toda a gente já foi, infelizmente é demasiado comum”, mas, ao mesmo tempo, esta resposta é acompanhada de hostilidade: “porque estás a perguntar isso?” O abuso normalizou-se a tal ponto que o que ali destoa já não é a agressão, mas o gesto de a denunciar.
Bates desloca-se a Berlim para experimentar a Cybrothel, o primeiro "cyber-bordel" da Europa, e a cena em que descreve a boneca Kokeshi (pele fria, lábios de látex já gastos, um dos lábios vaginais arrancado, "talvez mordido"), é das mais perturbadoras que li sobre objetificação sexual. O mesmo princípio guia todo o livro: a autora cria deepfakes de si própria, descarrega as aplicações de "namoradas de IA" para conversar com elas, pesquisa, paga e experimenta. O seu corpo transforma-se em instrumento de medição: o suor, o enjoo e a taquicardia que regista são os seus dados. É uma escolha metodológica arriscada, mas tem uma força que nenhuma estatística alcança, porque ataca de frente a fantasia em que assenta boa parte do ceticismo perante estes abusos: a de que o dano "fica no ecrã". Ao expor assim o próprio corpo, Bates recusa essa fronteira tranquilizadora entre o virtual e o real.
Todos os capítulos são o mesmo capítulo (e isso é uma boa coisa)
Permitam-me uma lente de leitura que a própria autora me ofereceu, sem talvez a levar tão longe quanto eu gostaria. No capítulo sobre robôs sexuais, Bates abre com Ovídio: Pigmalião, o escultor de Chipre que, enojado com as mulheres reais, esculpe em marfim a mulher perfeita: modesta, virgem, submissa, silenciosa, e que por ela se apaixona. O detalhe que costumamos esquecer é que o motor do mito não é o amor, mas o desprezo. A mulher ideal nasce do ódio à mulher real.
Sustento que Pigmalião não é a figura de um capítulo, é a chave de toda a obra. Cada tecnologia que Bates examina é uma forma de esculpir, a partir de um código, a mulher dócil que a mulher de carne e osso teima em não ser.
Há, primeiro, os Pigmaliões que esculpem o corpo. A pornografia falsa (os deepfakes) talha uma mulher nua a partir de uma fotografia em que a mulher está vestida; 96 por cento de todos os deepfakes são imagens íntimas não consentidas de mulheres, e quando ativistas como Kate Isaacs ou a jornalista indiana Rana Ayyub levantam a voz, é precisamente a sua imagem que é convertida em pornografia, para as calar pelo terror. (Bates arrisca aqui a palavra "terrorismo" - silenciar pelo medo -, mas é uma aposta retórica que merece discussão, porque ao mesmo tempo que aclara o conceito, também o torna forçado, o que lhe retira credibilidade.) Os robôs sexuais, a onze mil dólares, permitem personalizar vinte e quatro modelos de mamilo e onze de lábios vaginais para "construir" a mulher dos sonhos; e o pormenor mais revelador do livro talvez seja este: quando os fabricantes acrescentaram vozes de IA, vários donos desligaram-nas, porque preferem a sua mulher ideal muda. O cyber-bordel de Berlim, e o de Praga com o seu catálogo de "estudantes" e "enfermeiras", levam a escultura ao seu extremo encenado.
Há, depois, os Pigmaliões que esculpem a mente. As "namoradas de IA": Replika, EVA AI, a candidamente intitulada Pocket Girl, cujo lema é "ela faz tudo o que quiseres”, vendem-se como companhia, mas o que oferecem é a propriedade de um espírito. Como observa Hera Hussain, da organização Chayn, estas aplicações reduzem as mulheres em estereótipos hiperfemininos e treinam os homens para serem, em troca, controladores. A especialista em ética da IA Aimee van Wynsberghe chama-lhe, com elegância clínica, de-skilling: a erosão lenta da nossa capacidade coletiva de nos relacionarmos com outro ser humano que pode, escandalosamente, dizer que não. Se o robô concede ao homem a ilusão de domínio durante uma hora, a namorada artificial concede-lha o dia inteiro, todos os dias, e ainda por cima, cabe no bolso e é grátis. É, sublinha Bates com razão, a tecnologia de impacto potencialmente mais vasto de todo o livro, justamente por ser a menos espetacular.
E há, por fim, os Pigmaliões que esculpem o mundo, e é aqui que o presente do indicativo de Bates mais dói, porque já não falamos de homens desviantes num quarto escuro, mas de sistemas instalados nas instituições que governam as nossas vidas. O chatbot Tay, da Microsoft, demorou menos de um dia, em 2016, a transformar-se num poço de misoginia e racismo, simplesmente por aprender connosco. Mas o problema não são só os acidentes ruidosos; são os silenciosos. Algoritmos de reconhecimento facial com 35 por cento de erro para mulheres racializadas e 1 por cento para homens brancos. Sistemas de crédito que oferecem a um homem limites dez ou vinte vezes superiores aos da mulher com quem partilha o património, como denunciaram, em 2019, os próprios fundadores tecnológicos a propósito do Apple Card. Um algoritmo de saúde, usado nos Estados Unidos e que afeta cerca de 200 milhões de pessoas por ano, que subestima a gravidade da doença em doentes negros por usar o gasto com saúde como medida da necessidade de saúde. A ferramenta de recrutamento da Amazon que aprendeu a despromover currículos que mencionassem a palavra "mulheres". O algoritmo COMPAS, que ajuda tribunais a decidir penas. Não há aqui nenhum Pigmalião com nome e cara; há um Pigmalião difuso, codificado, que esculpe um mundo à imagem dos preconceitos com que foi alimentado e depois nos devolve essa imagem com o verniz da "objetividade científica". E quando perguntamos quem talha esse mármore, Bates leva-nos aos trabalhadores invisíveis das "fábricas digitais" de Nairobi ou da Índia, que etiquetam, por tostões e à custa de um enorme trauma, os dados que tornam estes sistemas possíveis.
A força desta organização - corpo, mente, mundo - é mostrar que a misoginia tecnológica não é uma colcha de retalhos de escândalos isolados, mas um único tecido, cuja trama comum é o que a autora, sem rodeios, chama direito adquirido (entitlement): direito ao corpo das mulheres, ao seu rosto, à sua imagem, à sua submissão, ao progresso e ao lucro a qualquer custo. O "move fast and break things" de Zuckerberg ganha, neste enquadramento, o seu sentido mais cru: a coisa que se parte são as pessoas.
Onde eu, como leitora académica, hesito
Escrever uma recensão honesta não é fazer uma vénia à obra. E precisamente porque admiro a coragem do livro, devo-lhe a cortesia da objeção.
A primeira tensão é teórica. Bates é uma sintetizadora e divulgadora brilhante, mas o solo intelectual onde pisa foi lavrado por outras antes dela: por Safiya Umoja Noble e os seus Algorithms of Oppression, por Ruha Benjamin e o "New Jim Code", por Cathy O'Neil e as suas "Armas de destruição matemática", por Caroline Criado Perez e o fosso de dados de género. A própria ironia que atravessa o livro tem genealogia: o sonho do ciborgue de Donna Haraway, aquela fusão libertadora entre humano e máquina que dissolveria as fronteiras do género, regressa aqui coalhado, transformado na boneca de silicone com IA embutida. Quem conhece esta literatura encontrará poucas ideias novas. O contributo de Bates não está na originalidade conceptual, mas na tradução: no facto de pegar em décadas de estudos feministas de ciência e tecnologia e os entregar, com fervor narrativo, a quem nunca ouviu falar deles. É um trabalho de utilidade pública. Mas é justo nomeá-lo pelo que é.
A segunda hesitação tem que ver com o modo como o livro retrata aquelas que defende. As mulheres habitam quase sempre estas páginas como vítimas: agredidas, falsificadas, despromovidas, esculpidas. Isso é verdade e é necessário dizê-lo com toda a brutalidade. Mas essa necessidade tem um preço: sobra pouco espaço para as mulheres como sujeitos que agem. Onde estão as mulheres que constroem, programam, regulam, resistem, ironizam e reapropriam estas ferramentas? Onde está a pluralidade do próprio feminismo, que não fala a uma só voz sobre robôs sexuais ou pornografia? As trabalhadoras do sexo surgem sobretudo como corpos postos em perigo pelo reconhecimento facial, e estão, de facto, mas também estão, embora raramente, como sujeitos com voz própria sobre estas tecnologias. Ao mostrá-las quase sempre como corpos sobre os quais se age, e raramente como quem age, o livro arrisca-se a reforçar, sem o querer, a própria passividade que pretende combater.
A terceira é estrutural e a mais importante. O diagnóstico é minucioso, vivido na pele e irrefutável; o capítulo das soluções, por comparação, fica-se pelo abstrato e pelo exortativo. A sua receita: “é preciso regulação, que exige vontade política, que exige pressão pública, que exige que abramos os olhos”, está certa e, ao mesmo tempo, soa estranhamente etérea para um livro tão concreto na dor. Bates sabe-o, e quase o admite quando abre esse capítulo a avisar que não há soluções milagrosas. Mas quem sai de Almendralejo e de Berlim com o estômago apertado merecia levar dali mais do que indignação. A obra é uma extraordinária máquina que nos leva a meter a mão na consciência, mas não conduz à ação.
Há, ainda, uma última tensão, subtil, que percorre todo o livro: a do registo. Bates declara, no fim, que escreveu este livro com raiva e que espera que o leiamos com essa mesma raiva, porque sem choque e fúria nada muda. Concordo com a intenção, mas desconfio do método. A raiva é um excelente alarme e um péssimo cartógrafo: acorda-nos, mas depois tende a atenuar os contornos. Por vezes, o tom catastrofista entra em rota de colisão com a ideia mais sensata da autora, a de que a tecnologia não é o problema, que muitas destas ferramentas têm um potencial transformador imenso, e que tudo depende de como as moldamos. Quando a indignação aumenta, esse equilíbrio cuidadoso ameaça ruir, e o livro arrisca-se a soar à tecnofobia que ele explicitamente recusa ser.
Para quem é este livro?
Nada disto, porém, retira força à obra e faço questão de o dizer sem rodeios: as minhas objeções são as tensões próprias de uma intervenção urgente, não os defeitos de uma intervenção falhada. The New Age of Sexism: How the AI Revolution is Reinventing Misogyny faz o que poucos livros de divulgação conseguem: pega num campo que parecia técnico e masculino, e mostra que ele é íntimo e profundamente sexuado. Mostra-o sem floreados, sem fórmulas e com histórias que nos chocam: a de Georgie, cujo agressor confessou por escrito ter difundido as suas imagens íntimas e cujo caso foi arquivado porque na lei era preciso provar que ele quisera causar-lhe dano, e ele escrevera que não. A de Scarlett Johansson, que protagonizou Her, o filme sobre a voz artificial perfeita, perseguida por uma forma de abuso atrás da outra, até à voz da OpenAI estranhamente parecida com a sua, e que conclui, fatalista, que tentar proteger-se da internet é, em larga medida, uma causa perdida. Se uma das mulheres mais poderosas e bem assessoradas do planeta se sente assim, pergunta Bates, o que resta às restantes?
Este é um livro escrito de propósito contra o muro que separa quem percebe destas matérias e de quem as sofre. A sua aposta política é simples: a "sociedade civil" precisa de saber disto agora, enquanto estas tecnologias ainda estão no início - na “infância”. E essa sociedade civil somos todos nós: os pais que não sabem o que é o Roblox onde os filhos passam cinco horas por dia, as mulheres que ignoram que a sua fotografia de perfil pode ser despida por dez euros, os legisladores que ainda debatem se uma agressão num mundo virtual "conta" como agressão e os académicos que estudam o sexismo de sempre sem repararem no que a tecnologia lhe está a fazer. A oportunidade de agir é curta: uma vez assentes os alicerces, desfazer o preconceito que neles ficou cimentado torna-se, nas palavras da autora, um milhão de vezes mais difícil.
O livro termina com uma imagem que não me larga e com um caso recente e atroz: o da médica violada e assassinada em Calcutá, seguido de uma enorme onda de pesquisas sobre o caso e de grupos a vender, por um preço altíssimo, alegados vídeos do crime. A lição que Bates retira é a da própria frase de abertura, agora invertida: “não podemos partir do princípio de que as coisas vão melhorar sozinhas”. Se continuarmos nesta trajetória, avisa, não estaremos a construir um admirável mundo novo. Estaremos a erguer uma gaiola mais dourada e mais "imersiva" do que nunca, para aquelas e aqueles para quem esta sociedade já falhou, e a quem promete falhar de novo, com a eficiência impecável de uma máquina.
Pigmalião, recordemos, esculpiu a sua mulher perfeita porque desprezava as reais. O que mudou em dois mil anos não foi o desejo: foi a escala e a impunidade. Bates não nos pede que destruamos a estátua. Pede-nos algo mais difícil e mais digno: que recusemos aceitá-la como progresso, e que voltemos os olhos para a mulher de carne e osso que continua, teimosamente, a dizer que não, em vez de nos centrarmos no marfim.
Esta obra é, em suma, uma leitura indispensável para leitores e leitoras, e muito em especial para quem ainda imagina que isto não lhe diz respeito. A misoginia que hoje se programa não é um problema das mulheres a resolver pelas mulheres: é uma questão cívica que nos convoca a todos e a todas, agressores e cúmplices, vítimas e potenciais aliados. E talvez resida aí o maior mérito de Bates: devolver ao espaço público, enquanto ainda vamos a tempo de o discutir, aquilo que de outro modo seria decidido sobre nós, sem nós e à porta fechada de um laboratório.

Última atualização em 24 de maio de 2026